| Expedição a Marrocos 2011 |
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| Escrito por Pedro Leal |
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Fotografias já publicadas na Galeria Fotográfica Continuamos a aguardar as crónicas dos participantes para o email: Este endereço de e-mail está protegido de spam bots, pelo que necessita do Javascript activado para o visualizar
Expedição a Marrocos 2011
Sob os desígnios de Alá ou a Expedição Alternativa
Nunca, em tantos anos de Marrocos, o planeamento de uma Expedição em que eu participasse foi de tal forma sujeito ao duro teste das dificuldades do dia-a-dia. Não fosse a experiência anterior, a habitual capacidade de “desenrascanço” tão Portuguesa e sobretudo uma caravana com participantes de espírito bem aberto e solidário e esta teria sido uma aventura bem mais complicada.
Por tal facto, é justo que as primeiras palavras sejam para agradecer a todos e cada um a vossa companhia, amizade e colaboração. Com vocês o difícil tornou-se (quase) agradável.
Ainda uma nota prévia para uma situação invulgar nesta aventura. Já não foi a primeira vez (nem será seguramente a última) que por um motivo ou por outro de força maior, uma ou mais participantes têm que abandonar a caravana e regressar antecipadamente a Portugal. Porém, desta vez foi o infortúnio que tocou a família de dois amigos e que por solidariedade acabou por arrastar mais dois participantes. A morte de um familiar fez com que antecipassem o regresso a Portugal para podem prestar as devidas homenagens a quem partiu e dar o apoio e conforto possível a quem ficou.
São horas difíceis, que o ambiente de amizade que se vive na caravana tende a amenizar mas não o poderíamos ignorar no início desta crónica. Estiveram sempre no nosso pensamento, quer enquanto empreendiam a longa etapa de regresso quer nos dias que restaram até ao final da Expedição. À família e aos amigos as nossas condolências e a certeza que embora não pareça agora, melhores dias virão quando o peso da saudade e das memórias de quem partiu for adoçado pelo poder curador do tempo. Estaremos sempre convosco e esperamos em breve revê-los.
Retomando a prosa, após termos conseguido ter toda a caravana agrupada (com excepção do Miguel Ali-baba e da Teresa que se nos juntariam no porte de Algeciras) esta que é normalmente uma etapa descontraída de entrada em Marrocos daria logo o tom para os dias seguintes.
Ainda em Portugal o Rebocador do nosso amigo Nuno e companhia, revelou uma persistente e arreliadora perda de óleo do motor, que depois de avaliada e corrigida com uma monitorização atenta e periódica reposição do nível do óleo dada a impossibilidade de reparação imediata da sua causa nos levou a fazer a viagem com algumas paragens adicionais. Também o Jipe de Alterne do amigo Hélder e da Ana, apesar de um motor reparadinho de novo apresentava um barulhinho inquietante no alternador que nos dias seguintes nos daria que fazer.
Como se estes prenúncios não fossem suficientes, à medida que nos aproximávamos de Algeciras um vento de Sudoeste cada vez mais forte começou a inquietar-me fruto de anteriores noitadas em portos Marroquinos por encerramento das travessias do Estreito de Gibraltar. Felizmente e com a inestimável colaboração da Paula Santos (que nos trata da logística hoteleira e dos ferrys e que em mais de uma ocasião durante esta expedição se mostrou um trunfo pela sua disponibilidade permanente), fomos informados a tempo de evitar entrar no porto de Algeciras (que estava fechado devido ao vento) para nos dirigirmos para Tarifa que ainda estava operacional, contactamos o Ali-baba para se por a caminho de Tarifa e depois de trocados os bilhetes lá seguimos para Marrocos.
Em Espanha não ficámos, mas houve quem ficasse. À beira do embarque o nosso Comandante e a sua hospedeira de bordo descobriram que, em virtude de umas cópias de última hora, os passaportes tinham ficado em … casa !!! Primeiro impacto, primeiras dificuldades sérias e primeiro estímulo e desafio ao Rui. Vai a Lisboa buscar, apanha o barco da amanhã do dia seguinte e retoma o contacto connosco em Marrocos. Desafio feito, desafio aceite, é pôr o novo rumo no Falcão Negro e rodas “no ar”. Até amanhã amigos, encontramo-nos algures em Marrocos.
Para os restantes a aventura do primeiro dia ainda estava longe do fim. Problema da travessia resolvido o nosso destino em Marrocos tinha mudado de Ceuta para Tanger. Chegados a Tanger, foi cumprir as formalidades fronteiriças sempre feitas em ritmo calmo e descontraído (c’est l’Afrique !!), cambiar dinheiro à saída do porto e em vez da fácil ligação Ceuta – Smir de meia dúzia de quilómetros, enfrentar cerca de uma centena, já de noite até ao nosso hotel, o Kabila em Smir. Check-in efectuado, sobrou tempo para um banhinho e um jantar retemperador das forças.
Para o segundo dia estava reservada uma ligação por asfalto, pela zona rural interior de Marrocos, com passagem e paragem para almoço em Vollubilis (ruínas romanas da importante metrópole romana, uma das mais bem conservadas do mundo devido ao clima favorável de Marrocos). O dia acordou chuvoso e embora se tenha feito mais do que um a tentativa para tentar identificar o problema do Rebocador, o facto de estarmos numa zona mais favorecida de Marrocos fez com que não encontrássemos nenhuma oficina aberta antes das 09:00 horas da manhã e optámos por manter o esquema do dia anterior de vigilância e seguir viagem.
A chuva embora de pouca intensidade veio condicionar o andamento da caravana nas primeiras horas do dia, feitas em zona montanhosa já que as estradas marroquinas com chuva, sobretudo no final do Verão, se tornam particularmente perigosas. Com algum esforço da caravana, conseguimos almoçar no local previsto, num olival com as ruínas em fundo e depois do almoço quem quis visitou ou revisitou Vollubilis. Entretanto o Falcão Negro do Rui e da Joana, tinha conseguido recuperar o atraso e em coordenação connosco juntou-se-nos em Vollubilis voltando a caravana a estar completa.
Após a passagem por Meknes, continuou a nossa cruzada pela rica zona agrícola de Marrocos sempre em direcção às fraldas Norte do Atlas onde se situa Beni Mellal e o Hotel Chems (que não encontrámos à primeira, motivando mais uma voltinha). Seguiu-se o jantar e o descanso de uma noite repousada.
Ao terceiro dia de viagem estava destinado o cruzar do Alto Altas, com visita às Cascatas de Ouzud. E foi precisamente a caminho das cascatas que tivemos oportunidade de apreciar a magnífica paisagem de montanha que envolve o lago formado pela barragem de Bin El Ouidane. É um óptimo aperitivo para a próxima paragem: a visita às cascatas de Ouzud. Esta era uma estreia para toda a caravana. Nunca nenhum de nós tinha visitado Ouzud. E o meu particular receio era encontrar meia dúzia de fios de água (afinal estamos no final do Verão num país que é uma das portas do grande Sahara) a cair de 5 ou seis metros de altura.
Mas não, Ouzud mesmo nesta atura apresenta-nos uma bela queda de água, com vários braços de cortinas brancas que se despenham numa rede de pequenos lagos a cerca de 80 metros abaixo e envolvidas numa vegetação abundantes onde habitam par além de outras espécies os já famosos (na floresta dos Cedros na zona de Ifrane) macacos do Atlas.
O local é fresco, aprazível e merece uma visita mais detalhada do que os 45 minutos que parámos desta vez. Ficou o desafio ara uma visita com paragem para almoço num dos vários “terraços” naturais, com uma saborosa Tagine (e que bem cheiravam já aquela hora) degustada calmamente ao som da água fresca e cristalina que cai. Decididamente voltaremos a Ouzud.
A caminho de novo o passamos por Demnate, cidade de influência judaica e após mais alguns quilómetros é hora de em zona de pinhal pararmos para o nosso segundo almoço pic-nic. Abertos os porta bagagens, os cestos e as geleiras é hora do petisco essa instituição gastronómica tão portuguesa e que tão boa convivência proporciona. Com uma visita especial: um pequeno camaleão (com pouco mais de 3 cm) que o Jaime descobriu e que depois de saciada a nossa curiosidade foi devolvida ao seu habitat.
Reconfortados os estômagos, tinha-mos pela frente cerca de 80 km de uma antiga pista de montanha, com alguns pedaços de velho asfalto fruto de uma antiga tentativa de domar a montanha, mas que o tempo transformou numa pista bastante dura e trabalhosa. Mas Alá achou mais uma vez que a coisa assim não estava bem. Arriscava-se a ser fácil e isso ele não queria. O Patrol de Alterne resolveu justificar o seu congnome. Os tais barulhinhos anteriormente detectados desabaram numa arreliadora gripadela do alternador. Reunião de cabeças, inventários do problema, solução: se é só ao alternador há que eliminar as correias do mesmo, fazer uma correia de improviso que permita manter a bomba de água a funcionar até chegarmos a Boulmane Dadés a uma oficina e mãos à obra. Correias fora e umas meias de senhora usadas providenciaram duas correias “novas”. Motor a trabalhar e tudo bem. Ou não !! O grande Alá ainda acha fácil e aborrecido assim. O retentor do alternador também “foi ao ar” e perde óleo de forma a lembrar as cascatas de Ouzud. E agora?
Primeira decisão, rebocar o Patrol de alterne até ao asfalto. Uma vez no asfalto, e dado que tínhamos à poucos quilómetros passado Demnat a opção era rebocar o jipe até à primeira oficina e tentar resolver o problema do alternador. É assim que nasce a alcunha de Rebocador para o Patrol longo do Nuno Silva. A caravana divide-se O Rebocador com o Patrol de alterne regressam a Demnat para reparar o alternador e ver se podem fazer alguma coisa pela perda de óleo do Rebocador e a restante caravana segue a tortuosa pista até perto de Ouarzazate onde fazemos os restantes quilómetros em bom asfalto. Resta-nos acompanhar por telefone os que ficam e caso seja necessário, após colocarmos a caravana em segurança no hotel, voltarmos para trás para ajudarmos no que for preciso.
A pista de montanha confirmou-se algo dura e trabalhosa (tem chovido bastante nos últimos anos em Marrocos e vê-se o resultado no estado de alguns pontos das pistas) mas a paisagem é de facto deslumbrante e vale a pena o esforço. Mesmo que o jipe Dinanite tivesse começado a sofrer de alguns indícios de “calores”. Também com duas “brasas” dentro até eu aquecia. Enfim mais um trabalhinho para fazer antes da etapa de amanhã, retirar, por precaução, o termóstato do Dinamite.
Chegar a uma unidade hoteleira com o selo Xaluca é sempre uma excelente forma de terminar o dia. A qualidade das instalações, a forma cortês e educado como somos recebidos e a excelente alimentação são a imagem de marca desta cadeia de hotéis. E mais uma vez assim foi. Um jantar buffet bem apresentado e variado que agradou a todos. Para os retardatários (e para mim e para o JPrudente) boas notícias: reparação feita ao alternador já vinham a caminho pela longa pista de montanha, restava-nos acompanhar a sua evolução e garantir que qualquer hora a que chegassem tinham um jantar adequado à sua disposição. E com, mais uma vez, colaboração do Xaluca foi providenciado para que cada um dos seis participantes tivesse no quarto à sua espera o seu jantar. O resto do grupo optou por se divertir ou descansar nos bares e salas de jogos do hotel ou apreciar a vista sobre Boulmane do terraço da piscina. Para que quem ainda vinha a caminho pudesse recuperar e para resolver pequenos problemas mecânicos já identificados e as surpresas que às vezes as manhã trazem, foi decidido atrasar a partida do dia seguinte em 1h30m.
Quarto dia de Expedição, um dia importante porque vamos fazer a pista do Boughafer, uma das bandeiras desta expedição. Esta pista feita em zona montanhosa feitas quase toda à cota baixa, está indelevelmente marcada na história recente de Marrocos por se ter dado aqui talvez a mais importante batalha de resistência ao colonialismo Francês e que foi crucial no manifestar deste povo da sua vontade e capacidade para tomar o seu destino nas suas mãos. Foram meses de resistência na que ficou conhecida como batalha do Boughafer.
Antes da partida, resolvidos que foram (esperamos) os calores do Dinamite, vistoria geral às viaturas e reparação de uma pequena fuga de óleo da direcção assistida no Grande Índio do Miguel que tinha começado a apanhar a mania do Citri-Disco de “marcar” território. Para além disso só uma pequena folga de rolamentos do eixo traseiro a ter em atenção mas sem necessitar de cuidados urgentes. E pensar que ainda vou ter saudades destes “probleminhas” …
Caravana em marcha, passamos junto ao Plateau des oiseaux (zona muito boa para a prática do Bird watching) já perto de Iknion onde passamos a pista. É uma zona de baixa e média montanha, sulcada de Oueds que são a base da nossa pista, onde a presença da vegetação e vais tornando mais escaca, e passando por pequenos aglomerados de casas onde vamos parando para deixar alguma roupa, sabão etc. e convivendo, na medida das possibilidades linguísticas, com a população. Mas Alá não dorme ….
No horizonte nuvem carregadas, prometem o que menos esperamos por estas latitudes nesta altura do ano: Chuva e da boa e para não nos podermos queixar de nada acompanhada dos respectivos trovões e magníficos relâmpados. Esta é uma situação sempre preocupante em Marrocos quando se tem de percorrer nonas de Oueds, porque é fácil cometer erros de avaliação. Nós podemos sempre ter uma percepção do que chove num raio de 10 a 15 km mas não temos informação válida sobre o que chove mais longe (às vezes a 200 ou 300 km é de onde vem o maior perigo). Numa terra sem obstáculos naturais à progressão da água, um ressequido Oued com centenas de metros de largura transforma-se num rio violento que tudo arrasta no seu caminho. Se dúvidas tivermos basta ir observando os grandes blocos de pedra que aparecem no leito mostram a intensidade das águas que os arrastaram.
Com este cenário em mente, fomos progredindo com um olho na paisagem e outro nas nuvens, fazendo a pista que e de facto muito bonita e não demasiado dura procurando encontrar um lugar mais alto onde pudéssemos para o nosso já habitual pic-nic.
De facto pouco depois apareceu o lugar certo, com uma vista magnífica a Nascente e a Poente, permitia parar toda a caravana em segurança e manter um olho no tempo. Pois o problema foi mesmo o tempo. Em tantos anos de Marrocos, com expedições feitas várias vezes em Dezembro na passagem do ano, não me consigo lembrar de uma só em que tivéssemos que guardar tudo a correr dentro dos jipes ou debaixo de chapéus-de-chuva e toldos e acabar a refeição sentadinho ao volante a ver a chuva cair copiosamente. Em Outubro, bastante a sul em Marrocos foi preciso o chapéu-de-chuva. Os deuses devem estar loucos.
Terminada da forma possível a refeição, ainda tínhamos 50 km’s de pista ela frente com alguns Oueds que podiam ou não (felizmente não) apresentar dificuldades. Mas não foi a chuva nem os Oueds. Mais uma vez Alá na sua infinita sabedoria, resolveu testar a caravana.
Meia dúzia de quilómetros após o almoço, nova paragem na caravana. O Patrol de alterne repetiu a gracinha, desta vez sem sombra para erros ou dúvidas. Alternador “agarrado” e consequente ruptura do retentor de óleo. Conclusão: 50 km’s de pista para rebocar antes da próxima cidade (Alnif) ou em alternativa desmontar a peça no local, levar à cidade para reparar e voltar à pista para montar de novo. Decisão: já foi rebocado uma vez, tenta-se de novo. O Patrol Rebocador entra em acção de novo.
Mas a tarefa já de si difícil de rebocar, torna-se particularmente complicada em terreno acidentado. Após alguns minutos temos que tomar de novo a decisão de dividir a caravana. Fornecemos aos dois jipes em marcha lenta um dos nossos telemóveis satélite para garantir que estarão sempre contactáveis, e vamos garantir que o resto da caravana chega o mais rapidamente possível ao asfalto em Alnif de onde em companhia do Rui Santana no seu Falcão Negro rumam directamente para o Auberge Dunes d’Or no Erg Cheby. Eu e o JPrudente uma vez chegados a Alnif procuramos informarnos sobre oficinas e possibilidade de reparação do alternador, tentamos saber também se existe algum reboque pesado que em caso de necessidade possa ir à pista buscar o Patrol de alterne e regressamos para juntos resolvermos a situação.
É nestes momentos que se revelam sempre os melhores valores das pessoas. E esta não foi uma excepção. No meio de toda a gente na caravana só havia para além do Jorge e de mim um participante a quem acima de qualquer dúvida eu confiaria um GPS e confiava que conseguisse ajudar os jipes lentos a fazerem o seu caminho. Esse era o Ricardo Santos que com a sua experiência de Navegação em 4x4, quer em Portugal quer em Marrocos, e o seu feitio desenrascado nos garantiam ser parte da solução. Um óbice contudo: era um participante como os outros, não tinha nenhuma obrigação de o fazer. O que não representou nenhum problema. Quando lhe fui pedir ajuda para conduzir a caravana ao asfalto e consequentemente ao Auberge, optou por voluntariar-se ao trabalho mais difícil: ficar na pista a ajudar os mais lentos. Ele com a firme companhia de quem escolheu viver ao lado dele para o bem e para o mal, a Luísa e o seu jipe Querias, lá foram para o fim da caravana juntar-se ao Nuno silva e ao Hélder e acompanhantes enquanto a restante caravana retomava a progressão. Para que fique registada a qualidade da ajuda que nos foi dada, basta que saibam que, no mesmo tempo em que nós pusemos a caravana no asfalto, procurámos uma oficina e um reboque e regressámos de novo à pista, nem chegámos a percorre 5 km’s. Ao fundo avistámos umas luzes em bom andamento e que boa surpresa foi ver o Querias à frente e 50 metros atrás em grande cavalgada o Rebocador e o Patrol de alterne. Ao Ricardo e à Luísa um abraço e um beijinho e o nosso público obrigado pela ajuda para além do dever. Ao Nuno Silva e ao Hélder e acompanhantes os parabéns, porque apesar do nosso convite para transportar os acompanhantes na caravana principal estes mantiveram-se sempre com eles e o obrigado pela resistência porque não é fácil ficar “para trás” dois dias seguidos, ainda que apoiados e acompanhados. Obrigado a ambos.
O resto da etapa podia ser história, mas não foi. Primeiro a oficina em Alnif era uma ”daquelas” que se viam muito antigamente e que hoje já vão sendo raras, ferramentas poucas, martelos dois, o dono senta-se ao fundo e olha distante para os “mecânicos” , que atarefam à volta do alternador. Peço para desmancharem tudo, incluindo a bomba de óleo acoplada ao alternador e começam a aparecer pequenos pedaços de metal. Aparentemente a avaria de ontem só foi parcialmente reparada em consequência a avaria repetiu-se. Tudo desmontado e lavado com gasolina, encontrado o rolamento e o retentor em falta era tempo de levar o Querias até ao Erg Cheby para descansar da longa jornada, ir verificar se os outros tinham chegado bem e se estavam a ser bem tratados, pelos nossos amigos Hassan e Mustafá. Foram mais 100 km’s feitos de noite, felizmente por asfalto, com grandes lençóis de água e chuvadas, Oueds a galgarem a estrada atestarem a nossa atenção. Felizmente quando os dois carros que ficaram no mecânico ficaram prontos, o tempo já tinha melhorado e a maior parte da água tinha escoado e fizeram uma viagem tranquila. Fica-me incompleto do dia. Não foi possível visitar a Cidade Perdida. Se não tivessem sido os pequenos problemas que nos atrasaram, teriam sido razões de segurança a ditar esta alteração. A chuva fez-se sentir maioritariamente a Sul, na zona onde o fech-fech cruza o grande Oued do ZIZ, precisamente entre Alnif e a Cidade Perdida. Fech-fech e água não combinam. Desaparece o pó sufocante mas fica um “matope” espesso e escorregadio que men em pé se pode andar. Como verificaríamos mais tarde por um grupo de ingleses que vinham de Mhamid para Taouz ficou retido por 48h antes de completar aquela pista. Fica para outra visita.
No Auberge Dunes d’Or o tempo corre em ritmo Berbere. Tudo se faz, tudo é possível desde que se não tenha relógio mas sim tempo. Os quartos são simples, mas a atenção e o carinho dispensado são de topo. A comida é verdadeiramente típica. Os cantares são entoados todos os dias não numa perspectiva comercial, mas sim num ritual de convivência e partilha. A piscina não é a maior nem a melhor que teremos nesta Expedição mas é seguramente a “mais nossa”. Estamos em casa. Preocupações ? O Dinamate faz um barulhinho, o Citro-Disco pinga, o Patrol de Alterne tem um cubo da frente a “cantar”, os rolamentos do Grande Indio continuam com folga (nada que o impeça de continuar a aventura) e o Querias apresenta uma folga considerável numa transmissão da frente. Enfim, nada de muito grave nem original. Vamos jantar e dormir e amanhã brincadeiras nas dunas. Depois de um banhinho matinal na piscina. A sério só a imponderabilidade do tempo que pode inviabilizar a dormida no acampamento do Oásis Norte do Erg. Deixámos acautelado um plano B para o caso de a chuva insistir na sua presença.
Quinto dia de viagem, Erg Cheby, piscina e descontrair. O Dinamate das brasas, depois de perder os “calores” tem um barulhinho. Diagnóstico fácil: nível do óleo da caixa de direcção baixo. Nivelado e fica Ok. Patrol de Alterne: pelo sim pelo não trocar o cubo por uma sobressalente antes de abordar a areia. Mais 45 minutos de reparação e parece tudo OK. Este jipe vai chegar a Portugal pronto para recomeçar a Expedição.
Com o atraso acumulado, arrancamos em direcção ao topo Norte do Erg. Há que avaliar como estão as dunas depois da chuvada do dia anterior. Bastantes dunas quebradas pois também fez muito vento por aqui ontem, com arestas novas e declives bem cortados a exigir cuidados redobrados na abordagem e na saída. Superficialmente dura mas por baixo bastante desagregada. Passam bem os primeiros mas depois é fácil “atascar”. Ialá, eia safari. Sem grandes preocupações que não fossem que todos se divertissem e que os que estavam pela primeira vez em contacto com as dunas pudessem se ajudados a compreender e por em prática os truques da condução em areia. E não correu mal. Ninguém aqueceu embraiagens, quem atascou (este escriba incluído e o BigToy da Patrícia também encostou a “barriga” na areia e claro que com exemplos destes o Toyzinho do “Desgraçado do fechadura” também “amuou” para não ser diferente) parou antes de “enterrar” completamente o jipe e percebeu quais as formas adequadas de desatascamento em cada situação e numa zona de dunas “caldeirão” os mais afoitos experimentaram fazer o “poço da morte”, manobra de recurso que requer prática e espírito decidido e que em situações limites é a única forma de vencer as dunas.
Com os apelos do estômago a fazerem-se sentir, rumámos de nove para o Auberge ara uma petiscada Portuguesa com chouriços e linguiças assados (e quem bom o chouriço de lombo de porco preto do “genro” (ficamos à espera do convite do Alibaba para ir ver os bichos in loco) do chouriço do Jaime, do em vinho do Rui Santana e mais queijinhos, saladas frescas e outros quitutes gastronómicos. O vinho e a cerveja correu nas gargantas, sem faltar o já famoso “Mojito gelado na piscina”. Ah, claro e o cafézinho do Jorge acompanhado do Whisky do Alibaba (a provar que nem todos os madeirenses têm as adegas fechadas a sete chaves).
E claro a suprema vontade de Alá. Ainda o almoço decorria e um ventinho começou a soprar, trazendo nuvens de dúvida sobre o acampamento. Pelas 17h da tarde eram certezas: acampamento anulado. Às 18:30h era o dilúvio no Erg Cheby. O céu cai-nos em cima das cabeças, quais cascatas de Ouzud deslocadas. Em 1 hora de chuva intensa (até granizo caiu) ficou tudo literalmente alagado.
Agora, até a simples viagem do Auberge até ao centro de Merzouga, para nos irmos encontrar com os outros, se tornou em alguns passes de bailado no “matope” que se formou. A alternativa em alguns troços, foi optar pelas dunas baixas que ladeiam o Erg e para entrarmos na zona habitacional foi preciso “molhar a barriga” dos jipes no Oued que até agora sempre vi seco. Este é um ano de estreias. Foi chegar, deixar os que tinham vindo connosco no Depôt Nomad para verem o artesanato Berbere e juntar-me ao resto da caravana, para o segundo acto do bailado, pela pista antiga que corre junto ao asfalto até ao Auberge.
Depois foi a saga do 31. Um verdadeiro 31. Primeiro a notícia de que o quarto 31 que tinha as bagagens da maior parte dos participantes tinha sido afectado pela chuvada. Depois a chave do quarto não aparecia (obrigado André por a teres guardado de forma tão eficiente), nem o Mustafá encontrava o duplicado num pote de barro com uma centena de chaves sem identificação. Quando finalmente se abriu o quarto o cenário era, digamos, bi-húmido. Tinha entrado água pelo tecto e também havia uma inundação vinda pela porta. Assim, ninguém se ficou a rir: quer as malas que estavam em cima das camas, quer as do chão estavam molhadas. Alá é democrático nestas coisas. No meio do desastre geral safaram-se alegremente dois computadores.
Redistribuídos os quartos, voltou a calmaria e foi hora de jantar, mais música, conversa e descansar para no dia seguinte partirmos em direcção a Erfoud.
O planeado para o sexto dia de viagem, resultou de uma adaptação do programa que faltava cumprir, com a visita à Fortaleza Portuguesa (formação rochosa em forma de ferradura, com o seu lado aberto protegido por uma muralha com mais de dois metros de altura por cinco de altura, que se diz ter tido várias funções desde épocas remotas, como açude de águas pluviais, como local de guarda de escravos e mais recentemente como cenário de rodagem de exteriores do filme A Múmia), visita a zonas onde os famosos fósseis com milhões de anos se encontram a cada passo cravados no solo e nas rochas.
Pelo facto desta zona ficar a cerca de uma centena de quilómetros da casa do nosso amigo e antigo guia Hamid Hammou, tinha sido lançado ainda em Portugal um desafio a todos os participantes (e que todos aceitaram) de fazermos esta distância para irmos almoçar uma bela tagine de borrego e marmelos, a sua casa em pleno palmeiral no centro de Goulmima.
Durante esta etapa foi possível observar o efeito da chuvada do da anterior na paisagem, em particular nos Oueds, mas o dia apresentou-se composto. A Fortaleza Portuguesa não desiludiu, é de facto uma massa rochosa imponente, incrustada numa paisagem também ela fantástica com um Shot (fundo de um antigo lago salgado seco) que hoje se apresentava húmido. Mesmo nesta zona remota, cinco minutos após pararmos já tínhamos dois vendedores que vindos do nada de bicicleta, lá promoveram os seus produtos.
O Hammou lá nos esperava em sua casa, com a sua habitual simpatia e prazer de divulgar o seu conhecimento e achados de longos anos de viagens pelas pistas de Marrocos. A sua casa é rodeada por um agradável jardim com altas palmeiras carregadas de tâmaras maduras (que o Hammou ofereceu a quem estivesse disposto a ir apanhá-las lá no alto e não sei porquê ninguém foi), uma Jaima (tenda berbere) e alguns quartos dispersos discretamente pelo terreno onde recebe hóspedes que aqui vêm buscar um espaço de descanso e partilha de saberes (como no caso de um casal Alemão, ele professor de Arqueologia que por lá estavam neste dia).
O almoço, feito sob a orientação da Marie-Oudile (mulher do Hammou) estava excelente, como de costume. Mais alguma conversa, o cafezinho e um chá de menta, algumas compras de tâmaras e estava na hora de partirmos para o Xaluca Maadid em Erfoud onde ainda chegámos a tempo de um banhinho na piscina, ou melhor será dizer nas piscinas (na exterior e na interior).
O jantar, o típico e bem servido buffet dos Xalucas, estava bom e depois reunimo-nos debaixo das palmeiras no bar junto à piscina, para num cerimónia já habitual nestas expedições do clube, entregarmos a todos os participantes uma obra personalizada de artesanato local como recordação desta nossa aventura. É hora de ir descansar porque amanhã o dia é longo. Temos pela frente a travessia do Atlas para Norte, fugindo à ligação tradicional pela garganta do Ziz e optando por fazer a antiga pista que liga as Gargantas do Todra a Imilshil e depois a Midelt,
O sétimo dia amanheceu com a tristeza e as sombras do luto a caírem sobre a caravana. Um familiar de dois dos nossos amigos deixou esta vida prematuramente e eles tiveram que nos abandonar mais cedo para chegarem a Portugal a tempo de prestarem a homenagem devida a quem partiu e a solidariedade e apoio a quem fica. Fizemos todos juntos, um breve momento de pausa e introspecção, ouvimos pela voz do Abílio palavras calorosas de quem parte e despedimo-nos para cumprirmos os destinos diferentes que o dia nos reservou. Um jipe e quatro participantes mais pobres, a caravana fez-se finalmente à estrada.
Primeiro objectivo visitar as Gorges do Todra, foi atingido após cerca de 1 hora de caminho. Por mais vezes que as visite fico sempre “esmagado” pela imponência das paredes talhadas na rocha destas gargantas por onde corre o rio Todra e que alimenta o verdejante palmeiral de Tinerir. Esta era uma das portas de entrada no deserto preferida para quem nos anos 80 e 90 do século passado vinha à descoberta do grande deserto do Sul. E foi precisamente com alguma nostalgia dos poucos que a fizeram no passado e com a curiosidade dos “novatos” que, após o retomar da viagem entrámos na antiga pista que passando por Ait Hani nos permite embrenhar pelo maciço do Alto Atlas em direcção a Imilshil para Almoçar junto aos lagos.
Apesar de asfaltada e com um traçado, mais “doce” podemos ver os vestígios da antiga pista e verificamos que a beleza paisagística desta região continua a justificar a opção por esta via de ligação ao Norte.
Imilshil, é uma pequena vila de montanha, que fica isolada pela neve nos meses mais frios do Inverno e os seus dois maiores atractivos são os seus lagos a cerca de 3000 metros de altitude (o Tislit e o Izli) e a chamada festa das noivas de Imilshil que ocorre normalmente em Setembro (este ano foi no princípio de Setembro a seguir ao final do Ramadão). E foi em direcção ao lago Tislit que rumámos para um mais um pic-nic, desta vez na margem do lago entre pinheiros e cedros, literalmente no quintal do que parecia ser uma casa de férias de montanha. Este deverá ter sido o último dos pic-nics porque nos dois dias que restam de expedição o mais provável é comermos refeições quentes em restaurantes. Foi o assalto aos restos guardados e com direito a alguns “saldos” para ver se não trazia de volta muita comida.
Estamos a cerca de 60 km’s com cerca de 50 km’s de pista pela frente ou em alternativa 180 km’s em asfalto por Rich em direcção a Midelt. Estamos dentro do horário para abordar a pista, resta apenas confirmar se a pista está toda transitável, já que por aqui também choveu bem nos dias anteriores e em alguns locais houveram aluimentos. Como a informação recolhida na única bomba de gasolina de Imilshil era contraditória (um funcionário dizia que a pista para Midelt estava boa e a de Beni Melal estava cortada enquanto um camionista dizia exactamente o contrário) e ainda tínhamos tempo para tomar uma decisão definitiva, a opção foi avançar para pista e tentar logo que possível confirmar a informação.
Assim, subimos um pouco mais para logo iniciar uma descida a espaços bastante íngreme na conta encosta, com mais uma vez uma paisagem muito bonita. Ainda em asfalto, eram visíveis algumas pedras e cascalho na estrada que foram uma má premonição que ainda me fez hesitar em continuar a descida e optar definitivamente pelo caminho mais longo por asfalto. Mas, também não eram mais 5 ou 10 km’s que faltava para o início da pista que fariam grande diferença. Já tivemos tantas contrariedades nesta expedição, tentemos a sorte.
Decididamente Alá persiste em nos contrariar. Confirma-se o pior para nós: para Beni Melal está transitável mas para Midelt está cortada por mais do que uma derrocada. Solução: meia-volta volver e rodas no asfalto em direcção a Rich. E sem mais valias, porque a estrada é trabalhosa, vamos fazer grande parte no lusco-fusco e de noite. Enfim esperemos que o Hotel Tadart (um hotel novo à saída de Midelt) tenha um bom jantar à nossa espera, já que a piscina está fora de causa, quer pelo adiantado da hora quer pela temperatura exterior que ronda os 12, 13 graus centígrados.
O hotel tem bom aspecto, foi inaugurado há menos de um ano e apesar de ser um 4 estrelas em alguns aspectos parece ainda em acabamentos. Mas os quartos são espaçosos, estão limpos e o jantar corre bem. E correria melhor se não fosse a desenfreada cantilena com que nos recebem e que dificulta o diálogo. Enfim folclore. E o nosso Alibaba caiu no goto de uma das dançarinas que bem o desafiou, mas manteve-se sereno e calmo, como convém a um cavalheiro de serenas barbas brancas.
Oitavo dia e último inteiramente em Marrocos. O grande objectivo do dia é chegar a Chefchouen para almoçar na praça velha e fazer algumas compras e uma visita rápida. Sim será sempre rápida porque Chefchouen precisa e merece tempo dilatado para ser vista e vivida. Até Fés tudo corre sobre rodas. Chego a pensar que finalmente Alá fez as pazes connosco e vamos ter uma etapa normal. Grave engano. Alá não dorme e está atento.
A agradável estrada de baixa montanha, entre campos agrícolas e pequenas aldeias a caminho de Ouezanne, cedo se começa a parece com uma pista de curvas e contracurvas, com um piso bastante degradado em que o antigo asfalto vai desaparecendo e o pouco que existe está gravemente esburacado. A Chuva que tanto nos prejudicou em dias anteriores, não aparece quando mais precisamos dela. O pó de uma estrada em obras durante uma boa trintena de quilómetros reduz ainda mais a progressão da caravana. Nem tudo é mau. Alguns aproveitam as curvas em terra para umas derrapagens controladas para quebrar a monotonia. O andamento torna-se tão lento que é necessário parar a caravana e estimular alguns participantes, nem que seja lembrando que almocinho só quando chegarmos a Chefchouen e a este ritmo só … jantar. O principal problema parece ser a Japonezinha que hesita neste dédalo de buracos e pó. Solução: conversa, explicação da nova táctica e passam para trás de mim com a missão de fazerem o que eu faço e como eu faço. Resultado: caravana de novo em andamento vivo e alguma diversão.
Chegados a Ouezanne o asfalto é de novo bom e é mais que hora de andarmos ligeiriinhos para um prometido almoço, já mais lanche ajantarado em Chefchouen. São mais cerca de 45 minutos e finalmente no horizonte aquela imagem branca e azul que sempre me encanta e a que ninguém fica indiferente. Conforme combinado, os condutores deixam todos os participantes o mais perto possível da praça velha e vão tentar parquear os jipes em segurança o que nem sempre e fácil aqui, enquanto os apeados vão andando para a Praça Velha para arranjar um bom local para descansar e comer.
Finalmente Alá mostra sinais de trégua. Ao fim de uma centena de metros, numa rua lateral arranjamos espaço para todos os jipes e em bom local. É o tempo de apenas fechar tudo e aí vamos nós para nos juntarmos aos restantes participantes. Como é hábito nas zonas mais turísticas de Marrocos, o cliente é para ser servido e portanto à nossa pergunta de “podemos almoçar” a resposta é um rasgado sorriso com a perspectiva de negócio e aí estamos nós de lista na mão à procura do prato de comida que mais nos preenche a imaginação. E há de tudo: tagines, brochetes e até quem sonhe com uma pastille.
Almoçados e com cerca de 1 hora de luz do dia pela frente faço um novo desafio à caravana: meia hora para algumas compras rápidas e início de viagem para Smir ou quem quiser, ficar mais um pouco em Chefchouen vai ter connosco mais tarde ao Hotel Kabila e nós tratamos de “atrasar” o mais possível o jantar para que os retardatários não fiquem sem comer. Mais uma vez a caravana divide-se consoante as vontades de cada um e lá retomo a estrada com mais 6 jipes. Objectivo imediato, parar numa das pequenas vendas de cerâmica que existem à beira da estrada para mais umas aquisições de última hora, nomeadamente louça de barro para confeccionar as tagines. É mais uma oportunidade para a hábil tarefa de negociar e gastar os últimos Dirhams.
De novo em marcha e com novo objectivo. Parar num supermercado Marjane à saída de Tetouen. É um misto de curiosidade e ver um grande supermercado Marroquino e da vontade de ainda adquirir alguma matérias prima para futuros cozinhados. E também uma necessidade. Na primeira noite em Marrocos, também no hotel Kabila alguns quartos tinham melgas que dificultaram o sono. Assim a minha prioridade foi encontrar um spray insecticida (e não fui só eu, pelo menos o Rui Santana também se preveniu) que depois foi usado a “tratar” dos quartos.
Compras feitas, voltamos à estrada para mais uma dúzia de quilómetros e finalmente o hotel. Estávamos a terminar o jantar quando chegou o resto do grupo ainda a tempo de também jantarem calmamente. Hora do soninho que o dia de amanhã começa com os insondáveis mistérios da s fronteiras marroquinas que tanto podem ser rapidinhas (para África) como penosamente lentas. Última boa notícia do dia: apesar de termos entrado por Tanger e termos os bilhetes de regresso marcados com Tanger-Algeciras, foi-nos confirmado pela Paula Santos que podemos retomar o nosso plano original de sairmos por Ceuta. Parece que com o aproximar do final da expedição as coisas vão retomando a normalidade e deixamos de ter de improvisar.
Nono e último dia. Bem cedinho pequeno-almoço, bagagens nas viaturas e ala que se faz tarde. São 20 quilómetros agradáveis até à fronteira. Formamos a já habitual coluna, recolher passaportes e preencher os papéis de saída para a polícia. E depois, carimbar os 25 passaportes, com um funcionário aduaneiro bastante zeloso do seu papel. Resultado: perto de uma hora para passarmos à fase seguinte, que é dar baixa dos jipes em Marrocos. Felizmente foi mais rápido. Fronteira passada e quinhentos metros à frente a fronteira da Europa em África: Ceuta. Tudo calmo e rápido.
A viagem até ao ferry decorre calma e sem história, numa Ceuta ainda mergulhada na calma matinal. O resto conta-se em duas linhas: uma travessia rápida e suave até Algeciras, com as últimas conversas como grupo, a troca de fotografias e contactos, a pergunta sempre presente nestas horas: qual a próxima aventura e quando voltamos a Marrocos. Para ambas a mesma resposta: brevemente.
Até lá, abraços e beijinhos a todos e apareçam ou digam qualquer coisa para alimentar este vazio que deixaram aqui no meu coração. InchAlah.
História: a batalha do Bougafer – uma epopeia memorável
A batalha do Bougafer foi uma das mais sangrentas e mortíferas do período da colonização Francesa do Norte de África e que teve grandes custos humanos para o Exército Colonial Francês. Esta batalha ocorreu a 13 de Fevereiro de 1933.
A França que vive então uma grave crise política, tem o seu exército empenhado na sua missão de “pacificação” de Marrocos em escaramuças com as tribos berberes do Atlas, nomeadamente a dos Aït Atta, gente simples mas rija, que não se deixa intimidar pelos representantes da autoridade colonial e estão prontos a morrer para defender a sua dignidade. Mais ainda, estão convencidos da legitimidade das suas pretensões.
Quando o Pacha de Marrakesh foi acusado pelas autoridades francesas de apoiar os “Harka” contra eles e terem assassinado o seu chefe (Amghar), há um cerrar de fileiras e entram em decidência aberta contra a autoridade colonial e começam a flagelar as tropas francesas. A sua bravura é grande e é amplamente confirmada na confrontação heróica e desigual no Bougafer.
O seu chefe, Assou Oubaslam, de seu nome verdadeiro Issa Ou Ali N’Ait Baslam, nomeado “Amghar” da tribo é um homem de face grave e corpo magro e musculado, aparentemente impassível e indiferente mas pleno de dignidade inspira confiança. Quando as autoridades militares o intimam a cessar as suas incursões, ele reponde com uma frase que ficou célebre: “Que aquele que escreveu esta carta, venha aqui buscar a resposta”.
O desafio está lançado. Os Aït Atta estão prontos para o combate. Estão entrincheirados no Djebel Saghro ao sul do Alto-Atlas. É ali que desde o inicio do Outono, acossados pelo vento frio que começa a soprar na região que abrigados em tendas de pele de cabra se vão reunindo. Conhecem todos os cantos e recantos do terreno. Em breve as tribos da região se juntam a eles, bem como outros de origens mais remotas. Todos armados e acompanhados pelas suas famílias.
O exército francês que avança sobre eles é comandado pelos generais mais aguerridos e experientes da França, como Catroux e Giraud comandantes respectivamente das regiões de Marrakesh e Tafilelt. Dispõem de um exército de 83000 homens bem armados, incluindo unidades de Goums, camponeses do Pacha Glaoui, guerreiros de tribos aliadas, de unidades da Legião Estrangeira e ainda de Saphis argelinos. Tudo este exército apoiado por 44 aviões de guerra e artilharia de grande calibre.
Os marroquinos abrigados no Saphro são à volta de 800 famílias. Os seus guerreiros dispõem ao todo de cerca de 2000 espingardas, artesanais “Moukkouhla”. A relação de forças é de um para 4000 face ao exército colonial.
As forças são desiguais mas os resistentes vão opor às tropas coloniais muito superiores em homens e armamento uma resistência feroz, bem organizada e disciplinada. O conhecimento perfeito do terreno é uma arma para travar a vantagem do inimigo. Todas as tentativas de avanço do exército colonial são travadas.
A resistência dos Aït Atta, pelos testemunhos da época, ultrapassa tudo o que os franceses podem imaginar. Eles têm pela frente as tribos mais guerreiras de Marrocos.
A resistência é tão encarniçada que o general Huré, que comanda as tropas francesas de Marrocos, decide assumir ele mesmo o comando da operação militar. “Nenhuma campanha colonial, em nenhum país, conseguir quebra uma tal resistência do homem e do terreno”, testemunha o romancista Henry Bordeaux. “É necessário então recorrer a outros meios para derrotar este inimigo aguerrido no seu formidável bastião: bombardear dia e noite, interditar-lhe o acesso aos pontos de água potável, isolá-los no seu reduto e pressioná-los a viver como seu gado morto, com os seus cadáveres…”.
A batalha entra agora numa nova fase. A artilharia colonial começa a martelar dia e noite a cidadela. Um dilúvio de fogo abate-se sobre ela desde a terra e do céu. Os resistentes são acossados mas não cedem. Estão decididos a combater até ao último combatente. Tanto os homens como as mulheres.
De todas as guerras conhecidas, mulher não tinha jamais tido um papel tão determinante e admirável como na batalha do Bougafer. Ela assegura as retaguardas, prepara os víveres e as munições, apoia e aviva a chama dos combatentes e encoraja-os com os seus gritos estridentes que os ecos das montanhas amplificam. Elas desafiam as metralhadoras que protegem os pontos de água todos os dias para garantir o abastecimento de água potável.
Muitas tombaram, mas logo outras as substituíram.
Depois de quarenta e dois dias de inferno, os franceses perderam 3500 homens, incluindo 10 oficiais. Os resistentes perderam 1300 combatentes. Entre as vítimas, muitas crianças, mulheres e anciãos.
Acossados, cercados, extenuados pela fome e pela sede, os resistentes querem-se render. Mas apesar da situação insustentável, não se rendem sem negociar.
No dia 25 de Março de 1033, Assou Oubaslam, na companhia dos seus “irmãos” descem da sua fortaleza, altivo e impassível. Troca um aperto de mãos com o general Huré. O espectáculo é comovente. Oubaslam dita as suas condições. O general Huré aceita-as. É a paz dos bravos. A honra e orgulho dos Aït Atta saem reforçados. Após a independência, Assou Oubaslam submete-se ao rei Mohamed V. Será distinguido pelo rei e morre em 16 de Agosto de 1960 tendo deixado uma marca indelével na história de Marrocos.
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| Actualizado em Terça, 06 Dezembro 2011 23:12 |



